Textículo (*) s. m., texto ridículo; texto pequeno. (* não existe no dicionário)
18.8.09

Para lá da constelação de Virgem, num dos braços da espiral Coma Berenice, gira o planeta Zilbun em torno de Alya, sendo o terceiro de um grupo de nove. Pouco depois de ter pousado no planeta, após uma viagem de 59 milhões de anos-luz, Simião Jacinto estava na presença dum juíz zilbuniano, acusado de assassinato. Solenemente foi sentenciado à morte, pena  essa que ser-lhe-ia aplicada ao raiar da aurora, encarcerado numa engenhoca que disparava raios azuis, sem possibilidade de recurso.

 

O astronauta foi então encaminhado ao Pavilhão dos Condenados, de caminho foi-lhe explicado que o pavilhão era uma ampla sala abastecida com todo o tipo de iguarias e bebidas e tudo o mais que desejasse, por ser a sua última noite, em torno da sala existiam quatorze quartos maravilhosamente decorados onde encontraria belíssimas e travessas mulheres. "Kom Kariakas!" - pensou. - "Não tenho tempo para disfrutar de tudo isto. Quantas horas me faltam até nascer o dia?" - perguntou. O guarda pareceu confundido e consultou um pequeno livro e ao fim de alguns segundos com um ar soturno começou a ler "O planeta Terra realiza 87 voltas em torno da sua estrela, o Sol, no decurso dum período de obscuridade em Zilbun." - concluído - "É melhor que se despache, para nós que vivemos vinte mil anos é um instante." E assim começou a longa noite de festas, bebedeiras e pouca-vergonha, não obrigatóriamente por esta ordem.

 

E depois acordei!

 

 

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26.1.09

Na semana antes do grande jogo da época, o confronto com a cidade vizinha, o ambiente andava desassossegado, junto à linha o treinador abanava a cabeça enquanto os jogadores treinavam, nem queria acreditar, ninguém parecia saber trocar a bola. Chamou todos à sua beira e berrou uma palestra sobre objectivos e empenho. Chamou à atenção para o exemplo do Henrique, que todos deviam seguir, um rapaz franzino, sem grande talento, trabalhador-estudante, em três anos foi sempre o primeiro a chegar o último a sair, nem sempre jogava e nunca se havia queixado, tinha paixão pelo jogo.

No dia antes do jogo o Henrique não compareceu ao treino, veio no fim dar uma satisfação ao treinador, pediu desculpa, o seu pai tinha falecido e não poderia dar o seu contributo à equipa no dia do jogo. O treinador compreendeu e prometeu dedicar o jogo à sua memória. No dia do jogo, uma hora antes começar o Henrique apareceu no campo equipado, pediu ao treinador que o pusesse na equipa inicial, queria estar com aquela que também era a sua família, o treinador hesitou até que viu o brilho nos seus olhos. O Henrique fez o jogo da sua vida, chegou mesmo a marcar um golo de cabeça.

No final durante um enorme abraço ao treinador, este emocionado:
 - Em três anos, nunca te vi jogar assim, rapaz!
Uns segundos silenciosos depois.
 - Chegou a conhecer o meu pai?
 - Nunca tive o previlégio, vi-te uma ou duas vezes a passear com ele de braço dado.
 - Sabe, ele era cego. Hoje foi a primeira vez que me viu jogar.

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