Textículo (*) s. m., texto ridículo; texto pequeno. (* não existe no dicionário)
17.11.08

Num dos cantos da garagem da casa alugada em que fiquei na Cidade do Cabo, duas caixas de cartão guardavam livros, discos e partituras. Os curtos minutos que passava na garagem, fossem à espera que a máquina de lavar me devolvesse a roupa, fosse em fuga para um cigarro, guiaram-me a curiosidade para vasculhar o seu conteúdo. Confesso este crime de invasão.

 

Com este crime lucrei e fiquei a conhecer uma parte da literatura sul-africana que ainda hoje é improvável encontrar, por exemplo Ezekiel Mphahlele, professor, escritor e activista, que agora descobri ter falecido à poucas semanas e que me fascinou na altura. E de que guardei num bloco pequenos apontamentos, como este. A coxa tradução é minha.

 

"... Não consigo retirar daqui algum significado. Olho à minha volta e suponho que esta cerimónia não é senão uma demonstração da nossa angústia e ao mesmo tempo o seu antídoto. Trazemos tanta violência dentro de nós, tanta morte. E ao ritualizá-la assim, ainda que grotescamente, tentamos conquistar o medo da morte, cortejá-lo, abraçá-lo. Olho o Soweto como um paradigma da vivência negra sul-africana, nos seus modos caricatos, já não cultiva a vivência comunitária que a memória colectiva ainda canta; esta personalidade deserdada procura salvar algo dessa memória e dar-lhe um significado, que nos ajude a sobreviver à crueldade dos tempos. É uma cultura de sobrevivência, uma cultura em fuga." (Mphahlele, 1984) Afrika My Music

link do post texticulos, às 15:49  | comentar