Textículo (*) s. m., texto ridículo; texto pequeno. (* não existe no dicionário)
Aventureiro introvertido; Sensível idiosincratico; Conversador tranquilo; Solitário na multidão; Dedicado desregrado;
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27.3.09

Não trabalhasse eu na área que escolhi, gostaria de trabalhar em publicidade e porquê? Porque me permitiria ganhar a vida a inventar maneiras mais ou menos subtis de chamar porcos, desleixados, lentos, gordos, velhos, débeis, desorganizados e parvos a tudo quanto mexesse e a maltinha sorríria de ansiedade, está demostrado que qualquer cérebro racional dilui-se em contacto com tal toxicidade para sucumbir de seguida ao instinto possuidor. O mesmo cérebro primitivo que nos fez descer das árvores para povoar a Terra e enfrentar eras glaciares, fomes, pestes e mais desastres, ainda assim após milhares anos de evolução, não conseguiu juntar três neurónios para dizer "Agora chega!" ao reguila que "Quer! Mais! Agora!". Desengane-se quem pense que isto é uma coisa moderna, as últimas décadas apenas serviram para nos trazer de novo ao estado selvagem interrompido entre a doutrina do meio-termo, que Aristóteles deixou ao filho Nicómaco e o final dum jantar Eduardiano (aquele do parque por cima do Marquês, o sétimo), onde atingida a suficiência elegante tudo mais seria supérfluo.

 

Foram descobertas cavernas com milhões de machados de pedra, exponencialmente mais do que alguma vez os nossos antepassados necessitaram e os antropólogos acreditam que não foram usados como ferramentas mas sim como demonstração de elevado valor reprodutivo, o equivalente neolitico de um Ferrari ou de uns sapatos Jimmy Choo. A explosão de dopamina no cérebro caçador-recoletor levou os trogloditas a atacarem munidos dum pau e duas pedras tranquilos crocodilos com a intenção de os transformar em pares de botas, é a mesma explosão que nos nossos dias nos acaricia a alma quando cruzamos o olhar com algo que desejamos com urgência para depois se dissipar num qualquer remorso de luxúria. Esta irracional e incessante busca do consolo no consumo de "coisas", comida e entretenimento para além de estar a dar cabo do planeta, não nos tem posto mais felizes, pelo contrário tem fomentado o stress, obesidade e a insatisfação.

 

Nesta era considerada de exagerado consumo passamos também demasiado tempo a trabalhar para obter o suficiente que alimente o tal impulso possuidor, deixando cada vez menos tempo para outras necessidades reais, particularmente a família e os amigos. Nunca, ninguém, em tempo algum, antes de morrer desejou ter passado mais tempo a trabalhar ou nas compras, desejou sim, ter passado mais tempo com aqueles que ama.

 


 

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De Sayuri a 27 de Março de 2009 às 21:16
Excelente comentário à merda de sociedade onde vivemos; e o pior é que vivemos dela e nela e por ela!

De texticulos a 30 de Março de 2009 às 12:27
Não primamos pela inteligência não é!?

De Marta a 30 de Março de 2009 às 12:45
O mal não é de agora... vem de longe e é constantemente alimentado pela pressa de se viver que quase sempre é confundido com a pressa em se ter. Cada um tem os seus pedregulhos , para uns são os sentimentos, para outros objectos... No fim não se leva nada para o caixão... mas podemos sempre deixar memórias duma vida rica e preenchida de afectos e experiencias!!! São escolhas feitas no dia-a-dia!
Beijocas
(Adorei os Jimmy Choo )

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